De São Francisco para o Band

O Congresso da NSTA reuniu, em São Francisco, trinta mil professores de diversos países para palestras e exposição de novas tecnologias licadas à educação. As professoras Lúcia Soares, Marta Rabello, Thaís Milani e Cristiana Assumpção
voltaram dos Estados Unidos cheias de ideias para dividir com toda a equipe de ciências do Band. O evento é tão grande e envolve tantas atividades que a equipe precisou se dividir para aproveitá-lo da forma mais abrangente possível. Nesse ponto as professoras consideraram uma grande vantagem estarem em um grupo maior. “Nem assim conseguimos ver tudo, mas ganhamos muito por estarmos em quatro pessoas”, ressalta a professora Lúcia Soares.

Como professora de ciências e laboratório de física, Marta Rabelo destaca que o conhecimento adquirido na viagem não se restringe às aulas de uma única matéria e que a multidisciplinaridade permeou muitas palestras. Além de tratar de Física, Química e Biologia, o evento mostrou novas formas de despertar o interesse do aluno.

Na busca por tal interesse, os americanos têm dado muita atenção ao que chama atenção dos alunos fora das salas de aula. Com os sucessos de séries como Law & Order e House M.D. os professores apostam na investigação científica para tornar a ciência mais sedutora. Muito mais do que atividades de laboratório que envolvem análise de digitais, por exemplo, o conceito de investigação pode estar aliado a todo o processo educativo. Trabalhar com a concepção prévia que o aluno tem sobre um assunto e contextualizar as aulas são práticas cada vez mais comuns nesse sentido e já estão sendo implementadas nas aulas do Band.

Mas a viagem da turma de professoras não se limitou ao Congresso do NSTA, e atrações de São Francisco como o “Exploratorium”, um grande museu interativo de Ciência, e o Aquarium of The Bay também foram muito importantes. “Experiências como essas ficam marcadas como imagens e ideias que acabam surgindo também nas aulas”, diz Thaís Milani. Para Cristiana Assumpção, essa perspectiva de “cidade como comunidade de aprendizagem” tornou a viagem ainda mais completa.

Neurociência com a simplicidade de um bate-bola

“Ser cientista é ser pago para manter-se criança em tempo integral”, a frase de Miguel Nicolelis sintetiza a paixão que emocionou e inspirou todos os que assistiram a sua palestra no anfiteatro, na biblioteca ou via internet na última terça-feira, 05 de abril.Falando de seu novo livro Beyond Boundaries (Muito Além do nosso eu), que será lançado no Brasil em julho, Nicolelis passou algumas noções de neurociência para explicar seu grande projeto experimental: a interface cérebro-máquina que possibilita a movimentação de membros mecânicos segundo a transmissão de estímulos cerebrais em tempo real.

A complexidade do assunto foi superada pela simplicidade do cientista, que abordou as funções cerebrais e muitos dos experimentos que tem realizado com sua equipe na Duke University com leveza e humor. “Por uma gota de suco de laranja brasileiro, qualquer primata faz o que vocês quiserem”, brincou ao descrever a série de procedimentos que possibilitou que o cérebro da macaca Aurora controlasse, da Carolina do Norte, os movimentos de um robô humanóide em Kyoto. Também não faltaram referências aos tempos de aluno no Bandeirantes. “Eu nunca achei que iria usar o que estava no livro do professor Rosemberg. A vingança dele é que eu uso isso todo o dia”, divertiu os estudantes que costumam fazer o mesmo comentário nos dias de hoje.

Com a teoria e a técnica mais esclarecidas, Nicolelis passou a mostrar as possibilidades de aplicação dessa nova tecnologia. “O meu sonho é que na abertura da Copa de 2014 é que uma criança quadriplégica dê o chute inicial usando apenas o pensamento”, o cientista garantiu que o sonho não está distante. A veste robótica interligada ao cérebro dá a chance de que pessoas com alto grau de paralisia voltem a comandar seus movimentos e já está sendo construída em Munique, num consórcio internacional com a participação de grandes cientistas.

Para Miguel Nicolelis, o potencial transformador da ciência não está restrito ao campo em que a tecnologia pode ser aplicada, mas é uma ferramenta poderosa para a construção de um país melhor. A expressão maior desse ideal é o Instituto Internacional de Neurociência de Natal, no qual funciona uma escola modelo freqüentada por estudantes da rede pública de ensino da região, onde elas desenvolvem atividades de laboratório depois da escola regular. “Mais do que ensinar ciência, nós demos a eles o método científico como uma grande ferramenta de cidadania”, afirmou otimista sobre o crescimento do projeto.

Ao final de sua fala, Miguel Nicolelis respondeu perguntas da plateia encantada e as mais de 300 pessoas que acompanharam a palestra aprenderam que “o impossível é o possível que ninguém se esforçou o suficiente para realizar”, como o cientista aprendeu com sua avó.

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